A música tem sido um instrumento de produção de mudanças sociais no contexto urbano

Arrancou esta
terça-feira (07) o Colóquio Internacional “Reiventar o discurso e o Palco: o
RAP entre saberes locais e olhares globais.”

Neste primeiro dia,
Iñigo Sánchez Fuarros, da Queen’s University Belfast, apresentou o tema
“Equalizando as margens: Culturas expressivas e requalificação urbana no centro
histórico de Lisboa” explorando o impacto do processo atual de requalificação
urbana de um dos tradicionais bairros de Lisboa, a Mouraria, na cultura
material, nos universos sociais e quotidiano do bairro.

O pesquisador lançou
um olhar crítico sobre os “rastos e os restos” que ficaram de fora deste
processo de transformação da malha urbana do bairro, mas que resistem-se a
desaparecer. Discutiu também sobre os pontos de sutura e as feridas que supuram
nessa linha que separa a memória e o esquecimento.

Através de diversos
materiais etnográficos obtidos durante o trabalho no terreno, Iñigo Sánchez
Fuarrosreflectiu de modo mais geral sobre as dinâmicas actuais de transformação
urbana dos bairros históricos de Lisboa.

Por sua vez, Tirso
Sitoe, Director da Bloco 4 Foundation, partindo da análise do discurso da
música do rapper Big-L, intitulado “Polícia camaral”, elaborou sobre a forma
como o sector informar reclama o direito ao espaço público que perfaz a cidade,
procurando compreender o modo como as autoridades municipais reagem a esse
processo.

Para Sitoe, “os
vendedores informais, previsivelmente, negoceiam suas experiências e
expectativas a partir de um engajamento coletivo e social que é cimentado nos
processos de interação com o espaço público e as autoridades municipais,
possibilitando-lhes manter sua condição de informal estoicamente.”

Tirso Sitoe sustenta
que a música fornece-nos um olhar sobre a complexidade das relações sociais no
sector informal entre os vendedores e a autoridades municipais, fazendo imergir
diversas problemáticas.

“A música e a cultura
popular podem ser usadas como instrumentos para inovar e produzir uma mudança e
são necessárias para a compreensão de uma parte substancial da realidade social
principalmente em ambiente urbanos,” argumenta, sublinhando que os vendedores
no sector informal não são vítimas passivas, pois a experiência demonstra que
eles desempenham um papel significativo ao assumirem lugares de destaque, nos
processos de reintegração social, desenvolvimento económico e social, na
condição de precariedade, em que buscam meios alternativos de empregabilidade
face ao sector formal.

Para ele, a campanha que
esta sendo desenvolvida pelas autoridades municipais para “Limpeza” do espaço
público ocupado pelos vendedores informais que na verdade, demonstra falta de
clareza sobre as ações municipais e deixam à margem a questão da negociação das
atividades informais, abre espaço para relação conflitual em algum momento. O
exemplo mais claro disso, hoje, são as clivagens entre os vendedores informais,
as autoridades municipais e Maputo Sul no contexto da construção da ponte,
Maputo-katembe.